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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

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Unidade I:
Unidade II: Positivismo, Marxismo
e Sociologia Compreensiva 1
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
O POSITIVISMO E OS PRIMEIROS MOVIMENTOS
SOCIOLÓGICOS
Quando falamos em pensamento sociológico, podemos  dizer que a
primeira corrente teórica sistematizada foi o positivismo, para demonstrar e
definir a particularidade do estudo científico da sociedade, distinguindo-se das
demais ciências existentes e definindo os contornos de uma nova ciência, cujo
objeto primordial anunciava-se como  a sociedade. Com isso, o positivismo
definiu o objeto, o método e os conceitos fundamentais da nova disciplina. A
sociologia desenvolveu-se quando a racionalidade das ciências naturais
alcançava status de substituta da religião  e da tradição na explicação do
mundo e da realidade, trata-se do chamado cientificismo.
Podemos dizer que o positivismo  foi, enquanto teoria que propôs uma
ciência da sociedade fundada a partir de um modelo científico natural, fruto do
movimento iluminista, mesmo frente ao fato de seu principal formulador,
Auguste Comte, vê-lo como reação às ideias  revolucionárias do Iluminismo.
Foi provavelmente o francês Condorcet (1753  -1794) o primeiro a
formular a proposta de uma  ciência da sociedade estruturada conforme o
modelo das ciências naturais, uma matemática social, isto  é,  precisa,
numérica e  rigorosa  que permitiria um conhecimento verdadeiramente objetivo
dos fatos sociais. Segundo Condorcet, toda ciência e conhecimento sobre a
sociedade, até então, estiveram submetidos aos interesses e preconceitos das
classes poderosas. Esta seria uma marca do positivismo, já colocada por
Condorcet, a ciência da sociedade, assim como as ciências naturais, deveria
desvencilhar-se das paixões e dos interesses, elementos que perturbam a
produção do conhecimento.
O  cientificismo caracteriza-se pela crença no poder absoluto, e praticamente
exclusivo, da razão humana para compreender a realidade e traduzi-la sob a forma
de leis naturais. Tais leis representariam regras para o funcionamento e
desenvolvimento da natureza e do ser humano. “O emprego sistemático da razão,
do livre exame da realidade, representou um grande avanço para libertar o
conhecimento do controle teológico, da tradição e da „revelação‟”...(MARTINS, 1990,
P. 18)2
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
O primeiro a utilizar o termo positivo ao tratar dessa nova ciência, ao
propor uma ciência positiva, foi Saint-Simon (1760-1825), discípulo direto de
Condorcet do qual apreendeu parte de suas  principais ideias. Saint-Simon
buscou inspiração em outra ciência natural que se destacava no período, a
biologia; por sua vez,  sua ciência da sociedade teria por modelo a fisiologia,
uma espécie de fisiologia social.
A idéia de que a ciência e a razão seriam capazes de captar a dinâmica
das sociedades e de que existiriam leis naturais regulando seu
desenvolvimento vai ganhando força durante o século XVIII e, aos poucos,
minando os antigos princípios de autoridade oriundos da tradição e da religião.
Neste momento, diversos pensadores conservadores, voltados a restabelecer o
passado, consideram que o caos e a ausência de moralidade e solidariedade
que as sociedades nascidas das duas grandes revoluções  (francesa e
industrial)  revelavam eram fruto do enfraquecimento das antigas instituições
protetoras, destacadamente a Igreja, que haviam promovido e sustentado a
estabilidade e a coesão social anteriores.
HULTON DEUTSCH/Stock Photos
Ao promover a
Revolução Francesa
com a qual alcança o
almejado poder
político a burguesia
deixa de ser uma
classe revolucionária
para se tornar a
classe dominante na
França.
A desordem e a
anarquia social
denunciada por
diversos pensadores
correspondem aos
novos conflitos
gerados agora entre a
burguesia e  o
proletariado3
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
COMTE E O POSITIVISMO
A transição do positivismo de concepção crítica e de oposição à ordem
estabelecida para filosofia da ordem e da harmonia social completou-se com
Auguste Comte (1798-1857). Discípulo direto de Saint-Simon em  seus
primeiros anos de estudo, rompeu com seu mestre por considerá-lo,
juntamente com Condorcet, demasiadamente  crítico e  negativo. Na
concepção  comteana, o  pensamento teria que ser totalmente positivo, não
havendo dimensão crítica ou negativa  na  análise social, acreditando que
Condorcet não descobriu, como ele fez, as leis da sociologia devido a sua
postura e preconceitos revolucionários.
Comte, com o positivismo, foi o primeiro a sistematizar o pensamento
sociológico, definindo seu objeto, estabelecendo conceitos e métodos de
investigação.  Acreditava no poder exclusivo da razão, sua capacidade de
conhecer a realidade  e  traduzi-la  na  forma de  leis  naturais; tais  leis
permitiriam regular e controlar o comportamento e a vida humana. Inicialmente,
Comte denominou a sociologia de física social, sob a influência do êxito e
reconhecimento obtidos pelas ciências naturais, aplicando seus métodos de
investigação às ciências da sociedade.
Conforme indicou Löwy (1985), são três as idéias principais do
positivismo:
1. A hipótese fundamental de que a sociedade humana é regulada por leis
naturais, portanto, invariáveis e independentes da vontade e da ação
humana. Assim como a lei da gravidade, não é possível impedir ou
modificar as leis da sociedade. Deste modo, “o que reina na sociedade é
uma harmonia semelhante à da natureza, uma espécie de harmonia
natural” (LÖWY, 1985, p. 36)
2. Em conseqüência da primeira hipótese, os métodos e procedimentos
para se conhecer a sociedade são exatamente os mesmos utilizados
para conhecer a natureza.
3. Assim como as ciências da natureza são ciências objetivas, neutras,
livres de juízos de valor, também as ciências da sociedade devem
funcionar segundo este modelo de objetividade científica4
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
A idéia fundamental do método positivista é de que a ciência só pode ser
objetiva e verdadeira quando eliminar totalmente qualquer interferência de
preconceitos e prenoções. Para os positivistas, portanto,  as ciências sociais
não teriam vínculo com classes sociais, posições políticas ou ideologias.
Ao estudar a história da humanidade para compreender melhor as leis
que regulam seu desenvolvimento, Comte, herdeiro das idéias de Condorcet de
que a humanidade está em permanente desenvolvimento ou evolução,
formulou o que chama de lei fundamental,
“Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções
principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa
sucessivamente por três estados de históricos diferentes: estado
teológico ou fictício, estado metafísico ou abstrato, estado científico
ou positivo. Em outros termos, o espírito humano, por sua natureza,
emprega sucessivamente, em cada uma de suas investigações, três
métodos de filosofar, cujo caráter é essencialmente diferente e
mesmo radicalmente oposto (...) Daí três sortes de filosofia que se
excluem mutuamente: a primeira é o ponto de partida necessário da
inteligência humana; a terceira, seu estado fixo e definitivo; a
segunda, unicamente destinada a servir de transição”
(COMTE, 1983, p. 4)
Para Comte, nesta evolução do pensamento e das ciências a Sociologia
representa o ápice do desenvolvimento, o coroamento do pensamento
científico, é a ciência capaz de coordenar e condensar o saber das demais
ciências. De acordo com a lei dos três estados, portanto, todas as ciências e o
espírito humano desenvolvem-se  a partir de três fases, são eles:
 Estado teológico: neste momento, a explicação da realidade ocorreria
a partir da crença na intervenção de seres sobrenaturais,  exercedo
papel relevante de coesão social.
 Estado metafísico: a metafísica  impõe o abstrato na explicação dos
fatos, não a natureza,  bem como a argumentação no lugar da
imaginação. O espírito metafísico corresponderia à substituição dos reis
pelos juristas, compreende-se a sociedade como originária de um
contrato.5
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
 Estado positivo: neste momento do desenvolvimento das ciências
ocorreria a subordinação da imaginação e da argumentação à
observação dos fatos concretos. Cada observação deveria,
necessariamente, corresponder a um fato.
Para Comte, representando os novos interesses da  burguesia
interessada na ordem, as sociedades européias estavam em estado de
profundo “caos social”. Crítico das idéias iluministas, viu nelas o “veneno da
desintegração social”, ou seja, ideias iluministas, na sociedade industrial,
somente poderiam levar  à desunião entre os homens. Para superar esta
situação  seria necessário atingir e estabelecer definitivamente o “estado
positivo”, deixando para trás os preconceitos e noções equivocadas, fruto da
imaginação ou do fervor religioso, e estabelecendo definitivamente  o domínio
da ciência e da razão.
De acordo com Comte, com a supremacia do estado positivo e da
ciência estabelece-se como consenso que não deve haver liberdade de
consciência com relação às questões sociais. Assim como na física, na
matemática e na biologia, cabe aos sábios determinar os princípios. Aos
sociólogos cabe a análise isenta da realidade e a elaboração das medidas
necessárias à sociedade, ao Estado cabe a execução destas medidas.
Comte vê os estados
teológico e metafísico
como etapas
necessárias ao
desenvolvimento da
humanidade, mas
sua perpetuação
causa entraves à
ciência e ao
verdadeiro
conhecimento do real
O estado positivo
deve estabelecer sua
superioridade
HULTON DEUTSCH/Stock Photos6
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
DURKHEIM: FATOS SOCIAIS, SOLIDARIEDADE E COESÃO
Mesmo com o reconhecimento devido a Comte por sua contribuição
para a instituição da Sociologia enquanto ciência, foi sem dúvida Émile
Durkheim (1858-1917) um dos pensadores que mais contribuiu para a
consolidação da Sociologia como  ciência empírica e para sua instauração no
meio acadêmico, tornando-se o primeiro professor universitário dessa
disciplina. Ele é referência metodológica obrigatória de boa parte da literatura
positivista na área das ciências sociais.
A Sociologia pode ser definida, segundo Durkheim, como a ciência das
instituições, da sua gênese e do seu funcionamento. Na fase positivista que
marca o início de sua produção, considera que, para tornar-se uma ciência
autônoma, essa esfera do conhecimento precisava delimitar seu objeto próprio,
os fatos sociais e o método adequado a sua observação.
Definir e descrever um método próprio à sociologia, capaz de tornar o
conhecimento da vida social científico, superando as dificuldades do senso
comum, permeado pela interferência das tradições e valores pré-científicos, foi
uma das primeiras preocupações do autor. Tal método deveria ser semelhante
ao adotado nas ciências naturais, contudo, com as adaptações necessárias ao
reino social. Com base em suas experiências práticas na observação da
realidade social, Durkheim elaborou regras para a observação dos fatos
sociais, são elas:
 Considerar os fatos sociais como coisas
 Afastar os preconceitos e as noções pré-concebidas
 Definir previamente tais fatos pelos caracteres exteriores que lhes são
comuns
 Considerá-los sem tomar em consideração suas manifestações
individuais
Fatos sociais compreendem “toda maneira de agir fixa ou não,
suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou
então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada,
apresentando uma existência própria, independente das
manifestações individuais que possa ter”,(DURKHEIM, 1971, p. 11).
Descrevê-los pelos seus
caracteres exteriores que
possam ser descritos
pela observação7
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Alguns aspectos permitem  caracterizar um fato social. Primeiro, são
“maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade
marcante de existir fora das consciências individuais” (DURKHEIM, 1971, p. 2),
ou seja, são exteriores ao indivíduo, definidos fora dele e independentes de sua
existência, têm por substrato a sociedade, são práticas, crenças e modos de
agir que existem antes do indivíduo nascer e continuarão a existir após sua
morte.
Segundo, são capazes de se impor às consciências individuais, “são
também dotados de um poder imperativo e coercitivo, em virtude do qual se lhe
impõe, quer queira, quer não. Não há dúvida de que esta coerção não se faz
sentir, ou é muito pouco sentida quando com ela me conformo de bom grado,
pois então torna-se inútil” (DURKHEIM,1971, p.2). Fatos sociais, portanto, se
impõem aos membros da sociedade, sendo a coerção maior ou menor
conforme a resistência que se opõe aos mesmos.
Assim, pois, o fato social é algo dotado de vida própria, externo aos
membros da sociedade e que exerce sobre seus corações e mentes uma
autoridade que os leva a agir, a pensar e a sentir de determinadas maneiras. É
por isto que o “reino social” está sujeito a leis específicas e necessita de um
método próprio para ser conhecido, diferentemente do que acontece no “reino
psicológico” que pode ser entendido por meio da introspecção.
Da perspectiva do autor, a sociedade não é o resultado de um somatório
dos indivíduos vivos que a compõem ou de uma mera justaposição de suas
consciências. Ações e sentimentos particulares, ao serem associados,
combinados e fundidos, fazem nascer algo novo e exterior àquelas
consciências e  às suas manifestações. A  sociedade, então, mais do  que uma
soma, é uma síntese e, por isso, não se encontra em cada um desses
elementos, assim como os diferentes aspectos da vida não se acham
decompostos nos átomos contidos na célula: a vida está no todo e não nas
partes.
Segundo Durkheim, todos possuem duas consciências: uma  individual,
que é única a cada indivíduo e lhe coloca problemas de ordem individual; outra
coletiva ou comum, caracterizada como um conjunto de idéias, sentimentos e
hábitos que exprimem em cada indivíduo o grupo do qual faz parte.8
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Essa consciência comum ou coletiva corresponde ao “conjunto das
crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma
sociedade [que] forma um sistema determinado que tem vida própria”
(DURKHEIM, 1983, p. 52), isto é, independente dos indivíduos
Os laços que unem os membros entre si e ao próprio grupo constituem a
solidariedade, a qual pode ser orgânica ou mecânica; de acordo com o tipo de
sociedade cuja coesão procuram garantir. Quando a personalidade individual
quase inexiste, quando os indivíduos se identificam uns com os outros por
semelhanças mútuas sentindo-se atraídos para manterem-se unidos, ocorre
entre eles aquilo de Durkheim denomina solidariedade mecânica.
Em sociedades onde se desenvolve a divisão do trabalho a unidade do
organismo é maior quanto maior é a individualidade das partes, isto é, uma
solidariedade mais forte e efetiva surge da interdependência entre os membros
da sociedade. À esta solidariedade, na qual cada membro individual executa
uma função para a manutenção do todo, Durkheim deu o nome de
solidariedade orgânica.
O MARXISMO
Pode-se dizer que no final da  primeira metade do séc. XIX,
particularmente no ano de 1848 com a publicação do “Manifesto do Partido
Comunista”, dos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-
1895), tenha se desenvolvido o que posteriormente seria nominado como
marxismo.
Portrait of Karl Marx
Karl Marx (1818-1883), German political philosopher,
author of Das Kapital.
IMAGEM: © Bettmann/CORBIS
DATA DA FOTOGRAFIA ca. 19th century
COLEÇÃO Bettmann9
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
A obra é uma espécie de divisor de águas no pensamento de Marx,
marcando o fim de um longo período de reflexões filosóficas (desde a
elaboração de sua tese de doutoramento: "Diferenças da filosofia da natureza
em Demócrito e Epicuro", defendida em 1841 na Universidade de Berlim); para
uma etapa de estudos políticos.
Nesta segunda fase, Marx resolveu um antigo problema na cisão entre
idealistas (que pensavam modelos ideais de sociedade, por exemplo), e
materialistas (alicerçados nas condições materiais de transformação das
sociedades), propondo aquilo que definiu como práxis: a ação transformadora
da realidade, rumo à concretização da idealidade. Obviamente, o ideal vicejado
por Marx só se constituiria, em sua teoria, diante das possibilidades materiais
de tornar-se real.
Com base nisso, Marx, nesta fase, centrou seus esforços na crítica
política ao modelo de sociedade vigente ao seu tempo, perscrutando suas
raízes mais longínquas na História da humanidade para defender um modelo
de sociedade que superaria os antagonismos de suas precedentes, levando o
Homem ao desenvolvimento máximo de suas potencialidades.
Sendo assim, há uma dimensão fundamentalmente sociológica na
elaboração teórica de Marx, pois lançou as bases do marxismo que, para além
da Sociologia, constituiu um dos mais significativos cabedais teóricos da
contemporaneidade. Serviu tanto como instrumento para organização da
classe trabalhadora e para o surgimento dos partidos políticos de esquerda em
todo o mundo, como para influenciar revoluções sociais como a Revolução
Friedrich Engels Working in His Office
Título original: Illustration of Friedrich Engels
(1820-1895), German socialist philosopher.
Undated.
IMAGEM: © Bettmann/CORBIS
DATA DE CRIAÇÃO ca. 1880's
COLEÇÃO Bettmann10
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Chinesa e a Russa, por exemplo; e, ainda, para conformar uma intelectualidade
engajada com a transformação da realidade social em nome dos menos
favorecidos, aquela que se denomina: marxista.
O princípio fundamental do marxismo é o materialismo, ou seja, a única
realidade  seria a matéria e suas forças, em transformação contínua. Sendo
assim, a matéria, para Marx, não consistiria em uma composição estática,
inerte, mas em constante movimento e transformação.
De fato, o princípio já estava na filosofia pré-socrática (estudada pelo
“jovem Marx”), no materialista Heráclito de Éfaso (540 a.C. - 470 a.C.)  e seu
célebre exemplo de que um homem nunca se banharia no mesmo rio duas
vezes, pois, na segunda vez, nem as águas do rio seriam as mesmas, nem o
homem permaneceria o mesmo. Para ele, tudo flui.
MATERIALISMO ECONÔMICO
Para Marx, a base econômica  seria determinante para o
desenvolvimento das sociedades.
Sua visão contrapôs-se à de  Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-
1831, foi professor e reitor da Universidade de Berlim, onde Marx estudou),
para quem “as idéias determinam todas as condições da sociedade”; para Marx
e Engels “a economia determina inclusive as idéias”, sendo assim, para o
marxismo “a economia molda a sociedade”.
Marx entendia que as relações econômicas de produção de determinada
sociedade permitiriam compreender todos os seus demais aspectos. Para isso,
focou sua análise nos modos de produção, a partir dos quais se conformariam
os demais aspectos da vida social, de forma adaptativa ao sistema econômico
vigente.
O estudo dos processos tecnológicos empreendidos nas atividades
produtivas, a divisão do trabalho decorrente da organização da produção, a
estratificação social resultante da divisão do trabalho, a distribuição dos bens e
produtos, seu consumo, a própria organização social, a remuneração da mãode-obra, o regime de propriedade e as leis que legitimam essas relações, são
elementos fundamentais para a compreensão das sociedades.11
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Segundo esta visão, a estrutura econômica exerceria um papel
determinante no processo de transformação das sociedades humanas. Dela
adviriam mudanças no cotidiano dessas sociedades, moldando seus aspectos
político-ideológicos e culturais, pois se constituiria fundamentalmente das
próprias formas de relação de produção que as regeriam.
A transformação das sociedades estaria, portanto, intrinsecamente
relacionada com o movimento de suas estruturas econômicas, ou seja, com a
forma como o Homem interfere na natureza para atender as suas
necessidades de sobrevivência.
MATERIALISMO HISTÓRICO
Para Marx, as sociedades, ao longo da História, também estariam em
perene transformação, conforme vimos, determinadas pelas mudanças em sua
base econômica.
Essas transformações se dariam  por meio de uma marcha triática, ou
seja, a partir de três elementos: tese, antítese e síntese. Essa formulação
advém de uma re-apropriação que Marx fez da dialética proposta por Hegel,
daí dizer-se: da dialética hegeliana.
O movimento se daria da seguinte forma: tudo o que existe na natureza
constitui tese; porque tudo está em movimento (como vimos), tudo o que existe
em natureza se transforma, em especial, em direção ao seu oposto (exemplo: a
madeira se transforma naturalmente de forma a deixar de ser madeira, quando
começa a se decompor), a esse contrário, que nega a tese, chamamos de
antítese (anti+tese); o choque da tese com seu contrário (ou suas contradições,
como no exemplo dado, de a madeira naturalmente se decompor), teria como
resultado a síntese, ou seja, algo novo (uma matéria nova, no exemplo dado,
produto da decomposição da madeira).
Essa mesma lógica verifica-se, segundo Marx, na mudança das
sociedades, que também se decompõem e se transformam em algo novo.
Essas transformações seriam determinadas, como vimos, pela base
econômica. Sendo assim, uma base econômica determinada, como o
capitalismo, por exemplo (ao tempo de Marx, que era o tempo da
industrialização), seria a tese dessa sociedade: o chamado modo de produção 12
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
capitalista. Seus antagonismos ou contradições, ou seja, sua antítese, seriam
exatamente as condições de penúria e extrema exploração vivida pelo
proletariado, a classe trabalhadora nas fábricas. No momento em que o
proletariado não suportasse mais sua condição de exploração e se  voltasse
contra o explorador - a burguesia -, ocorreria o choque que produziria um novo
modo de produção, ou seja, a síntese.
Sendo assim, a expressão do materialismo histórico seria a luta de
classes: o momento de choque entre uma classe dominante (cuja ordem seria
a tese) e as classes dominadas (cuja condição de exploração seria antítese).
Com base na dialética hegeliana (tese + antítese = síntese), Marx
elaborou sua teoria  explicativa sobre a sucessão dos modos de produção da
vida social: “Todo modo de produção já traz em si o germe que provocará sua
deterioração e o surgimento de um modo de produção novo”, tendo como
motor dessas transformações a “luta de classes”.
Para Marx, a luta de classes seria então o motor da História, da
transformação da base econômica das sociedades e, assim sendo, das
próprias sociedades.
A origem da divisão da  sociedade em classes sociais estaria na
propriedade privada dos meios de produção.
No momento em que um indivíduo se outorga proprietário de um
determinado meio de produção, como a terra, por exemplo, ele se distingue de
todos os demais que não são  proprietários. Decorre daí a divisão do trabalho
social, entre os proprietários dos meios de produção e aqueles que são
proprietários apenas de sua força de trabalho. Trata-se, para Marx, de uma
relação fundamentalmente de exploração, na qual há exploradores e
TESE X ANTÍTESE =  SÍNTESE
( o que existe) (suas contradições) o novo
MEIOS DE PRODUÇÃO: São os meios necessários para garantir a existência
material do Homem, como a terra e os instrumentos/ferramentas para a
transformação da natureza naquilo que possa saciar as necessidades humanas
(uma enxada, um arado, uma máquina numa indústria, por exemplo).
O meio de produção mais importante, no marxismo, é a terra.13
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
explorados. Percebemos então que, segundo essa perspectiva, a divisão do
trabalho social determina papéis e identidades sociais e, segundo o marxismo,
estão na base das desigualdades, por parte daqueles que são proprietários dos
meios de produção e expropriam a força de trabalho alheia.
Em determinado momento, então, essa condição de exploração se
tornaria de tal forma insuportável que adviria daí a consciência dessa condição,
chamada por Marx de “consciência de classe”: o combustível necessário para
ativar a luta de classes, o motor das transformações sociais subseqüentes.
REVOLUÇÃO SOCIAL
A luta de classes encontra expressão máxima na forma da revolução
social, que então cria a nova ordem de produção, síntese do velho e do novo.
Trata-se da síntese  dialética que vimos em Hegel e depois em Marx: a
nova ordem já trás em si o germe de sua ruína, suas contradições internas que
provocarão a antítese, que em choque com a tese gerarim a síntese (o novo).
A história da humanidade  seria então a história da luta de classes, e a
luta de classes dependeria por sua vez da consciência de classe. Sendo assim,
compreende-se porque para Marx “a violência é a parteira das novas
sociedades”.
A revolução como expressão da luta de classes, dada pelas
contradições do CAPITALISMO (expressão máxima da exploração a que
teriam chegado as relações entre proprietários dos meios de produção e
proprietários de sua força de trabalho), levaria ao SOCIALISMO (propriedade
dos meios de produção centradas no Estado), fase transitória para o
COMUNISMO (ausência de propriedade privada dos meios de produção e,
com isso, ausência de relações de exploração).14
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
ESTRUTURA SOCIAL
A estrutura social, no marxismo, é formada pelas relações de produção:
o fator econômico é portanto o determinante fundamental na configuração das
sociedades, pois o papel do indivíduo na sociedade advém do papel que
desempenha na divisão do trabalho social.
As relações de produção determinariam as formas de consciência,
organizações políticas, religião, lei, filosofia, ciência, arte, literatura e até
mesmo a moralidade.
Nessa perspectiva, o Estado (que não fosse o Socialista) seria a
superestrutura criada a serviço da classe dominante, proprietária dos meios de
produção, para manter essas relações inalteradas em favor dos dominadores.
A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MAX WEBER
Max Weber é um nome de grande importância dentro do pensamento
social. Suas contribuições teóricas criaram as bases da Sociologia moderna,
juntamente com Durkheim e Marx. O estudo do seu pensamento vai possibilitar
a aquisição de uma importante ferramenta na compreensão das ações
humanas e das sociedades.
Para Weber, o objeto da sociologia é a  ação social. A ação social é a
conduta humana à qual o próprio agente associa um  sentido. É aquela ação
orientada subjetivamente pelo agente levando em conta a resposta ou a reação
de outros indivíduos. É preciso ver o que Weber entende por sentido. Ele
estava mais preocupado com enfatizar que o sentido é aquele  subjetivamente
visado pelo agente e não um sentido correto da ação ou algum sentido definido
como verdadeiro. Interessa, enfim, aquele sentido que se manifesta em ações
concretas e que envolve um motivo sustentado pelo agente como fundamento
da sua ação. Para Weber, a sociologia é uma ciência voltada para a
compreensão interpretativa da ação social, para sua explicação causal e para
seus efeitos (COHN, 2003). 15
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
Em  Economia  e  sociedade,  Weber distingue  quatro tipos de ação
social: 1) ação racional  em  relação a um fim  (por exemplo, o desempregado
que procura um emprego); 2) ação racional em  relação a um valor  (quando o
sujeito age racionalmente não para alcançar um resultado, mas para
permanecer fiel a um valor, como no caso do capitão que vai a pique com o
navio que afunda ao invés de abandoná-lo); 3) ação afetiva (aquela ditada pela
emoção ou pelo humor do agente); 4)  ação tradicional  (aquela ditada por
hábitos, costumes e crenças). Esses tipos de ação encontram-se mais ou
menos mesclados na vida social, mas sua classificação é necessária para se
poder interpretar a vida social (REALE; ANTISERI, 2003).
O conceito de motivo permite estabelecer uma ponte entre o sentido da
ação social e a compreensão dessa ação por parte do cientista social. Do
ponto de vista do agente, o motivo é o fundamento da ação. Para o sociólogo,
cuja tarefa é compreender essa ação, a reconstrução do motivo é fundamental,
porque, da sua perspectiva, ele figura como a causa da ação (COHN, 2003).
A tarefa do cientista social é descobrir os possíveis  sentidos das ações
humanas presentes na realidade social que lhe interesse estudar. O sentido,
por um lado, é expressão da motivação individual. O caráter social da ação
individual decorre da interdependência dos indivíduos. Uma pessoa age
sempre em função de sua motivação e da consciência de agir em relação a
outras pessoas. Por outro lado, a ação social gera efeitos sobre a realidade em
que ocorre. Muitas vezes, tais efeitos escapam ao controle e à previsão do
agente (COSTA, 1998).
Ao cientista social compete captar o sentido produzido pelos diversos
agentes em todas as suas conseqüências. As relações que o cientista
estabelece entre motivos e ações sociais revelam as diversas instâncias da
ação social – políticas, econômicas ou religiosas (COSTA, 1998).
Weber distinguiu a ação social da relação social. Para ele, a  relação
social é uma ação cujo sentido é compartilhado pelos agentes envolvidos
nessa ação. Por exemplo, um sujeito que pede uma informação a outro
estabelece uma ação social: ele tem um motivo e age em relação a outro
indivíduo, mas tal motivo não é compartilhado. Numa sala de aula, onde o
objetivo da ação dos vários agentes é compartilhado, existe uma relação social
(COSTA, 1998).16
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
O cientista, como todo indivíduo em ação, também age guiado por seus
motivos, sua cultura, sua tradição, sendo impossível descartar as suas pré-
noções. Existe sempre uma parcialidade na análise sociológica, como em toda
forma de conhecimento. As preocupações do cientista orientam a seleção e a
relação entre os elementos da realidade a ser analisada. Os fatos sociais não
são coisas, mas acontecimentos que o cientista percebe e cujas causas
procura desvendar. Uma vez iniciado o estudo, este deve se conduzir pela
busca da maior objetividade na análise dos acontecimentos. A realização da
tarefa científica não deve entrar em conflito com as crenças e as idéias
pessoais do cientista. O que garante a cientificidade de uma explicação é o seu
método. Weber lembra que, embora os acontecimentos sociais possam ser
quantificáveis, a análise do social envolve sempre uma questão de qualidade,
interpretação, subjetividade e compreensão (COSTA, 1998).
METODOLOGIA WEBERIANA
As reflexões metodológicas de Weber têm uma clara dívida com a
filosofia do Iluminismo. O ponto de partida e  de chegada da sua análise é o
indivíduo. Weber considerava o indivíduo e a sua ação como uma unidade
básica. Ele incorporou o problema da compreensão da ação social em sua
abordagem sociológica e chamou sua sociologia de sociologia compreensiva
ou interpretativa (GERTH; WRIGHT MILLS, 1971).
Para poder compreender os fenômenos sociais, Weber propôs um
instrumento  metodológico que chamou de  tipo ideal. Trata-se de uma
construção teórica abstrata a partir dos casos particulares analisados. O
cientista constrói um  modelo pelo estudo das diversas manifestações
particulares do fenômeno,  acentuando aquilo que lhe pareça característico
desse mesmo fenômeno  (COSTA, 1998). Para Weber, o tipo ideal  “obtém-se
pela  acentuação  unilateral de  um  ou de vários pontos de vista e encadeando
uma quantidade de fenômenos isolados, difusos e discretos, existentes que se
encontram ora em grande número, ora em pequeno número, por vezes até
ausentes, que se ordenam segundo aqueles pontos de vista unilateralmente
evidenciados, em um quadro conceitual homogêneo. Em sua pureza
conceitual, esse quadro nunca poderá ser encontrado empiricamente na 17
Unidade II: Positivismo, Marxismo e Sociologia Compreensiva
realidade: ele é uma  utopia.  E ao trabalho histórico se apresenta a tarefa de
verificar, em cada caso individual, a maior ou menor distância da realidade
daquele quadro ideal” (Apud REALE; ANTISERI, 2003, p. 473).
O tipo ideal não existe na realidade. É um instrumento de análise
científica, uma construção do pensamento que permite conceituar fenômenos
sociais e identificar na realidade observada suas manifestações.  Pode-se ver
que o tipo ideal é instrumento metodológico de pesquisa. Com ele, construímos
um quadro ideal (por exemplo, de  protestantismo, de economia urbana, de
capitalismo, da Igreja, de  dominação, etc.) para depois com ele medir ou
comparar com  a realidade efetiva, controlando a sua proximidade ou o seu
distanciamento em relação ao modelo. Resumidamente, pode-se dizer que: 1)
o tipo ideal não se identifica com a realidade, não a reflete nem a expressa; 2)
ao contrário, em sua idealidade, o tipo ideal se afasta da realidade efetiva para
afirmar melhor os seus diversos aspectos; 3) o tipo ideal não deve ser
confundido com avaliação ou valor; 4) o tipo ideal, repetindo, pretende ser
instrumento metodológico, os conceitos típicos-ideais são uniformidades limites
(REALE; ANTISERI, 2003). 18
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